A Rede Tucum - Rede Cearense de Turismo Comunitário - foi lançada em maio de 2008 durante o SITS - II Seminário Internacional de Turismo Sustentável -, fruto de uma articulação iniciada em 2006, reunindo as experiências em turismo comunitário de 10 comunidades na zona costeira do Ceará e 2 pontos de apoio em Fortaleza: Tatajuba (Camocim), Curral velho (Acaraú), Caetanos de Cima (Amontada), Flecheiras (Trairí), Etnia Jenipapo-Kanindé (Aquiraz), RESEX Batoque (Aquiraz), Prainha do Canto Verde (Beberibe), Assentamento Coqueirinho (Fortim), Ponta Grossa (Icapuí), Tremembé (Icapuí), Alojamento Frei Humberto (MST-Fortaleza) e Associação Mulheres em Movimento (Conjunto Palmeiras - Fortaleza).
Reunindo desde comunidades que ainda estão estruturando-se para receber os visitantes até aquelas que já praticam o turismo comunitário há vários anos, a rede facilita a formação, a melhoria de infra-estrutura, a captação de recursos e o trabalho conjunto na estratégia de marketing, ampliando a capacidade das comunidades em oferecer os serviços turísticos.
Vanessa Lima, Assessora do Instituto Terramar, em entrevista ao IVT, conta um pouco desta experiência.
IVT: Quais os objetivos da Rede TUCUM?
Vanessa Lima: A Rede Tucum é uma articulação de comunidades e instituições que, para além de fazerem a crítica ao modelo de turismo em curso no Brasil e em outras regiões do planeta, se juntam afim de construírem – teórica e praticamente – uma oferta turística diferenciada, uma experiência de viagem autêntica. Associado a isso, a atividade turística nas comunidades configura-se enquanto uma estratégia de ocupação, defesa e permanência nos territórios ancestralmente ocupados e dinamização das atividades econômicas desenvolvidas pelas populações tradicionais.
IVT: Qual foi de fato o papel do Instituto Terramar na articulação destas experiências em rede?
Vanessa Lima: O Terramar atua em defesa e afirmação da vida dos povos do mar há quase 16 anos, trabalhando em diferentes áreas. Ao longo do tempo tem priorizado as temáticas da pesca artesanal, da luta por terra e do direito à água e ao território. Vinculado a esses temas, a instituição tem acompanhado e denunciado os impactos das políticas públicas e as consequências decorrentes enfrentadas pelas populações tradicionais na Zona Costeira, tais como a prática da pesca predatória, a especulação imobiliária e a carcinicultura (criação de camarões em viveiros), entre outros. Em conjunto com os Movimentos Sociais da Zona Costeira do Ceará, vem construindo estratégias de articulação e fortalecimento dos vários sujeitos na luta por direitos e nos processos de elaboração de ações afirmativas. O turismo comunitário surge da crítica ao modelo de turismo implementado pelas políticas de turismo e da necessidade de descobrir um saber-fazer coletivo para uma proposta diferente de turismo. Neste tema, desempenhou um papel de um dos sujeitos atuantes no processo dinâmico de articulação das comunidades (que participaram da elaboração da proposta) e de outras instituições que compartilhavam objetivos semelhantes.
IVT: A Rede tem cerca de um ano de formação, quais as ações da Rede até o momento e quais os resultados?
Vanessa Lima: Ao longo deste tempo, temos nos voltado para a capacitação dos sujeitos locais para desenvolver e aperfeiçoar os produtos e serviços turísticos, bem como melhorar suas capacidades de gerenciamento e planejamento da atividade turística. Além disso, voltamos à atenção para a reforma e construção de equipamentos de hospedagem naqueles lugares onde isso ainda não existia. Associado a isso, temos trabalhado na definição e concretização de instrumentos de promoção ampliando os contatos no Brasil e no exterior para reforçar a demanda de visitantes para alguns lugares já consolidados, e mesmo criá-las para outros destinos mais recentemente integrados a esta proposta.
IVT: Em que medida a experiência com o turismo ajuda ao desenvolvimento social na região?
Vanessa Lima: O turismo comunitário tem conseguido fortalecer, nas comunidades, o processo de pensar estrategicamente o fortalecimento das atividades produtivas tradicionais e planejar as prioridades para a organização de novas atividades e serviços. O turismo comunitário potencializa novas fontes de renda para as populações locais, por representar uma nova atividade econômica entre aquelas já desenvolvidas pelas comunidades. Além disso, essa renda é regida por princípios coletivos, ou seja, a idéia é que as benesses trazidas por esse acréscimo na renda local sejam compartilhadas o mais equitativamente possível. Isso se faz através da gestão comunitária das demandas e de seus resultados.
Para isso, os visitantes são direcionados a ocupar de maneira alternada as diversas estruturas turísticas existentes (restaurantes, guias, hospedarias). Além disso, uma taxa sobre todos os serviços e produtos turísticos locais é destinada a um caixa comum de uso coletivo, cujos investimentos revertem para interesses da comunidade (melhora da escola, um projeto com crianças, etc.).
Toda essa mobilização de esforços, capacidades e organização necessária para o desenvolvimento do turismo comunitário também tem fortalecido a participação da comunidade na definição dos seus próprios caminhos. O incremento da renda por si só não é suficiente para trazer desenvolvimento social ou melhora na qualidade de vida. Ele deve, necessariamente, articular e fortalecer os objetivos e valores das práticas de socioeconomia solidária e a participação qualificada dos envolvidos/as nos vários serviços. O turismo comunitário se manifesta na relação ética entre comunitários e visitantes, na distribuição de renda, no respeito ao meio ambiente e na valorização do modo de vida local.
IVT: Quais são os projetos da rede para o futuro próximo?
Vanessa Lima: Na perspectiva de fortalecimento interno, haverá continuidade no processo de formação pois esta é uma necessidade permanente. Também iremos nos debruçar sobre as ferramentas institucionais que regulamentam acordos sobre a participação dos membros da Rede Tucum e suas atribuições de forma a viabilizar democraticamente a participação de todos/as. Externamente, serão definidas estratégias de comunicação, promoção e marketing para, assim, ampliarmos a capacidade de mobilização de visitantes para os destinos da rede. Ainda, precisamos caminhar bastante para a consolidação da Turisol – Rede Brasileira de Turismo Solidário Comunitário – para, a partir daí, tornar esta uma atividade referência para o Brasil como já o é em diversos países da América Latina.
O Instituto Virtual de Turismo do Estado do Rio de Janeiro, IVT-RJ, é um projeto do Laboratório de Tecnologia e Desenvolvimento Social (LTDS), desenvolvido a partir da linha de pesquisa Turismo e Desenvolvimento Social, do Programa de Engenharia de Produção da Coordenação dos Programas de Pós-graduação em Engenharia (COPPE/UFRJ).
Para saber mais acesse: www.ivt-rj.net